Experimentem colocar o nome do álbum "Equipe ST 803", de 1964, no Google. O resultado será, invariavelmente, um disco atribuído a Eumir Deodato.
Venho batalhando por isso há anos, desde 2001, quando a internet ainda parecia um campo aberto para o debate apaixonado — e aquilo era maravilhoso. Lembro bem do imperdível site "Tribuna Samba-Choro", do Paulo Eduardo Neves, onde debatíamos, em alto nível, os mais variados assuntos sobre a nossa música. Desde aquela época eu já defendia: aquele era um disco do Neco.
Fazia pouco tempo que tinha tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, junto com sua esposa, no apartamento onde moravam na Tijuca, no Rio de Janeiro. Fomos, eu e alguns amigos, convidá-los para assistir e participar da homenagem que faríamos (Grupo Sarau), na Cobal do Humaitá, para o Neco com a presença de outro grande músico: Julio Barbosa, o Julinho do Trumpete. Julio estava no Rio tentando (infelizmente sem sucesso) lançar seu último álbum, Embalo - A new concept of Brazilian music (1999), gravado na Alemanha.
Naquela noite de março de 2002, tive a oportunidade de perguntar ao Neco por que o seu disco aparecia em todos os sites e conversas como sendo de Eumir Deodato.
Pois bem, hoje tenho a oportunidade de reafirmar aqui: aquele álbum é do Neco!
E por que ele nunca "colocou a boca no trombone" para dizer "este disco é meu!"? Além de sua lendária modéstia e generosidade, havia ali uma profunda cumplicidade musical. Os arranjos de violão do Neco eram, na verdade, a base estrutural de toda a obra, pensados e compartilhados de forma integrada com o piano de Eumir Deodato e de Tenório Jr. Neco sabia que aquela arquitetura harmônica e rítmica era um trabalho de base em que as cordas e as teclas dialogavam em total simbiose. Como parece ter sido comum em sua trajetória de músico de estúdio, não há registro, até onde consegui apurar, de que tenha recebido royalties pelo trabalho.
Faço este reparo um pouco tarde, em memória do Neco. Mas basta abrir qualquer aplicativo de streaming, o Discogs ou qualquer outro acervo digital para ver o nome de Eumir lá. Fica aqui o meu registro, ainda que tardio.
Aliás, a única pessoa que fez questão de tirar o Neco do anonimato na época foi Bibi Ferreira em seu programa de TV. Ela apresentou Daudeth — e, segundo consta, também Geraldo Vespar — tirando-os das entranhas das orquestras de estúdio para mostrá-los ao vivo na televisão. Mas isso se perdeu na nossa curta memória brasileira.
Anos mais tarde, quando o CD foi relançado pelo selo Ubatuqui (UBCD 102), por Arnaldo DeSouteiro e pelo próprio Eumir, o nome de Neco apareceu quase invisível na contracapa, figurando como mero arranjador dos temas. Afinal, Eumir tinha o peso comercial que, merecidamente, carrega até hoje.
Infelizmente, esse apagamento de Neco não foi um caso isolado e ultrapassou fronteiras de forma caricata. Em 1981, ele participou das gravações do disco Let The Thunder Cry, de Jim Capaldi (baterista e fundador da banda britânica Traffic). Como era comum em sua trajetória de músico de estúdio, ele não recebeu um único centavo de royalties pelo trabalho.
Para completar o absurdo, seu próprio nome de batismo, Daudeth, apareceu na contracapa internacional do álbum sob o inacreditável pseudônimo feminino de “Claudete de Azevedo”. E isso não era uma gravação qualquer: Neco estava ali tocando guitarra, ao lado do Azymuth e de Steve Winwood, participando inclusive de “Old Photographs”, uma versão de “Casinha Branca”, de Gilson. É difícil imaginar uma forma mais cruel de apagar alguém: o músico estava presente, sua música estava registrada, mas até seu próprio nome lhe foi negado. Um episódio que diz muito sobre o descaso histórico com tantos dos nossos grandes músicos de estúdio, aqueles que sustentaram a música dos outros sem que quase ninguém soubesse quem eles eram.
Neco viveu e morreu pobre.
Até a próxima!
Documentos e referências sobre Neco
1. Revista Cinelândia (1964)
EQUIPE: PRIMEIROS LANÇAMENTOS
OSVALDO CADAXO, que foi durante muito tempo um dos mais eficientes colaboradores de Nilo Sérgio na Musidisc, fundou a sua própria etiqueta, “Equipe”, já com seus primeiros lançamentos na praça, na sua maioria orquestrais e dançantes, reunindo um punhado dos melhores artistas ora atuando entre nós, entre êles Eumir Deodato, autor de muitos dos arranjos, Luiz Marinho (contrabaixo), Tenório Júnior, Humberto Garin e outros. A coordenação artística é de Tony Vestani, também egresso da Musidisc, e todos os lançamentos são previamente estudados e cuidadosamente preparados.
— “Queremos ir devagar... e sempre” — diz-nos Osvaldo Cadaxo — que se orgulha de constatar os primeiros sucessos da sua etiqueta, entre êles o samba moderno Tremendão, pelo conjunto “Os Catedráticos” (LP Tremendão), editado em mono e “stereo”.
Os demais lançamentos da “EQUIPE” são SAMBA NOVA CONCEPÇÃO, seleção de sambas modernos em arranjos de Daudeth de Azevedo (Néco); NA ONDA DO SAMBA, solos de piano por Miguel Angel, conjunto e côro; IMPULSO, pelo conjunto “Os Catedráticos”, arranjos de Eumir; outro bom LP constante dêste primeiro catálogo EQUIPE é êste DUAS FACES DO AMOR, com o pianista Ribamar e seu conjunto, revivendo algumas das melhores páginas musicais, como A Noite do Meu Bem, Segrêdo, Dó-Ré-Mi, Canção da Volta, Ninguém Me Ama, Se Eu Morresse Amanhã, Foi a Noite, Fôlhas Mortas e Prece.
Outro bom lançamento muito ao gôsto dos dançarinos é LOS DANSEROS EN BOLERO. Para as festas juninas, Osvaldo Cadaxo produziu FESTANÇA, com a sanfona de Raimundinho comandando o show, que é realmente uma festança alegre e vibrante.
Todos êsses discos foram gravados em mono e “stereo”, nos excelentes estúdios da CBS. Além das qualidades artísticas, merece louvores a apurada técnica e o bom gôsto na apresentação das capas.
2. O Jornal (1969)
CURSOS
Segunda-feira, a Escola Brasileira de Música Popular abrirá as inscrições para os Cursos de Leitura e Escrita, professoras Maria Aparecida Ferraz e Laís Figueiró; Violão, professores Daudeth Azevedo (Neco) e Alberto Arantes; Teclado, professor Leonardo Luz; Piano, professora Laís Figueiró; Clarinete e Saxofone, professor Paulo Moura; Trombone, professor Antônio J. da Silva (Norato), e Bateria, professor Hugo Tagnin.
As aulas começarão a 5 de abril. Informações do Museu da Imagem e do Som, Praça Marechal Âncora, 1.
• No Sindicato dos Enfermeiros, Rua Benjamin Constant, 139, das 10 às 18 horas, acham-se abertas as inscrições para os Cursos de Auxiliar de Laboratório, Operador de Raios X, Operador de Radioterapia, Massagista, Ótico Prático e Laboratorista. Todos êsses Cursos são reconhecidos pelo Serviço de Fiscalização da Medicina.
• Estão abertas na Escolinha de Recreação Sócio-Cultural as inscrições para o Curso de Piano (professora Daysi de Luca), a ter início dia 10 na filial do Flamengo. Informações na Av. N. S. de Copacabana, 435, grupo 1207, telefone 37-2687.
• Através do IBECC, o Serviço Nacional de Teatro foi cientificado do início, em setembro, em Londres, dos Cursos de Diretor e Instrutor Profissional. Informações mais amplas: Drama Centre, London, Ltd., 176 Prince of Wales Road, Chalk Farm, London, N. W. 5.
• Começará dia 20, em São Paulo, o XX Curso sôbre Rotinas Trabalhistas, promovido pela Federação e Centro das Indústrias. Inscrições e informações no Viaduto Dona Paulina, 80. As aulas serão dadas pelo professor José Serson.
3. Jornal do Commercio (1969)
Discos — Samba e Violão Vol. 2 e o preciosismo de Neco
Oswaldo Miranda
Tem a etiqueta London o LP há pouco dado ao público pela Odeon com o violonista Neco. Samba e Violão Vol. 2, com êsse instrumentista, é uma nova afirmação do excepcional valor do músico brasileiro.
Pouco sei de Neco. Pertence à Orquestra da TV-Tupi, onde funciona na obscuridade de suas obrigações, como parte de um todo. Dias atrás, a produção de Bibi, ao vê-lo vir à frente das câmeras, para que se descobrisse um pouco, tal como aconteceria também com Geraldo Vespar, outro magnífico violonista. Bibi pretendeu revelar os grandes anônimos, e Neco e Geraldo tocariam com a orquestra de Cipó os arranjos feitos, creio que para Apito no Samba, se não me falha a memória. Não pude falar ao Neco naquela noite e hoje sei que êle está de férias no Canal 6. Desejava ter alguns informes sôbre êsse valoroso astro das seis cordas, já que o LP nada traz a respeito. A contracapa é apenas a reprodução em prêto e branco da capa a côres.
A produção deve ser de Milton Miranda. Mas vocês vão ver que saborosa coisa é essa de se ouvir um violão — violão de mestre — atuando ao lado de um fabuloso trio de flautas e uma bateria. Incrível como, partindo-se do simples, possa-se chegar de imediato ao esplendoroso. Tocando firme, limpo, hábil, solando e aplicando com absoluta justeza os acordes modernos, Neco perpetua no disco uma exibição magistral de violonismo popular. Tocador de violão de 1934, quando me licenciei de minha arte, até 1946, ao desencantar-me com o meio artístico — e tenho a convicção de que cheguei a tocar muito bem, segundo os mais avançados padrões do violão atualizado às exigências da harmonização — sinto-me perfeitamente à vontade para sentir a grandeza da arte de Neco. Trago-o com êsse disco à primeira linha dos principais instrumentistas populares brasileiros e aplaudo-o com sinceridade. Vejo-o, componente da orquestra da TV-Tupi, como um humilde servidor da pauta e do maestro e, por isso mesmo, exato. Agora, só encontrá-lo, de dois anos, mecânica exuberante, som precioso, dissonância na medida, ritmo integral, como síntese de um LP consagrador.
Mas que não faltem elogios ao arranjador, ao mago que tanto soube pedir das flautas e que tão fulgurantemente soube mesclá-las ao jogo do violão e do baterista — de resto, também senhores instrumentistas. O universal do grupo pode ser tranquilamente observado na maneira com que êles criam a atmosfera do samba tradicional (Despedida de Mangueira ou Implorar, por exemplo) com o samba moderno e com o efeito impresso a Andança e o Sabiá, composições que, se o corpo do Festival Internacional da Canção não me haviam sensibilizado, encantam-me agora e me levam a uma retribuição sôbre o julgamento severo feito por mim mesmo. Isto é um serviço inestimável prestado por Neco, seu violão, as flautas, o ritmo, no LP em causa.
Recomendo o disco, cujas faixas são as seguintes: Andança, Danilo Caimi-Edmundo Souto-José; É Preciso Cantar, Marcos-Paulo Sérgio Vale; Sabiá, Tom Jobim-Chico Buarque; Você Passa, Eu Acho Graça, Carlos Imperial-Ataulfo Alves; Despedida de Mangueira, Benedito Lacerda-Aldo Cabral; Canção do Amanhecer, Edu Lôbo-Vinícius de Morais; O Cantador, Dori Caimi-Nelson Motta; Sonho de Lugar, Marcos-Paulo Sérgio Vale; Helena, Helena, Helena, Alberto Land; Implorar, Kid Pepe-Germano Augusto-Gaspar; Retrato em Prêto e Branco, Jobim-Chico; Cherinho A, Neco.
4. Revista do Rádio (1964)
7 — Alguns bons discos da bossa-nova que variam de 4 a 5: “Vagamente”, com Wanda Sá; “Edison Machado é Samba Nôvo”; “Diagonal”, com Johnny Alf; “Tema 3D”, com “3D”; “A Bossa-Nova e o Violão”, com Paulinho Nogueira.
8 — Vêm agradando os LPs da nova gravadora Equipe, de Osvaldo Cadaxo. Os discos: “Samba Nova Concepção”, com o conjunto Equipe, tendo arranjos do violonista Neco, e “Impulso”, com “Os Catedráticos”, com arranjos de Eumir Deodato.
9 — O que mais sucesso vem fazendo é “Impulso”, com o conjunto liderado por Eumir. Êste é um dos bons valores do samba nôvo, e para tanto podem constatar os seus arranjos para o conjunto do Menescal, para o LP de Marcos Valle e para êste “Impulso” e “Vagamente”, LP de Wandinha Sá para a RGE. Eumir já é uma realidade e uma escola da nossa música moderna.
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